Os Cinco Estilos de Coping Religioso-Espiritual :
“Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração
e suplicas, com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus.”
Filipenses 4.6
Existe uma palavra em ingles que nao tem traducao perfeita em portugues: coping. Ela significa a
maneira como uma pessoa lida com situacoes dificeis — o conjunto de estrategias, conscientes ou nao,
que usamos para enfrentar o estresse, a dor, a perda, a doença, o luto.
Mas o que os pesquisadores da área de saúde mental e espiritualidade descobriram nas ultimas décadas e
algo que qualquer leitora da Bíblia já intuía: a fé e uma das ferramentas de coping mais poderosas que
existem. Não a fé decorativa, de vitrine. A fé que entra na cozinha quando a panela queima. A fé que
aparece as três da madrugada quando o diagnóstico é grave. A fé que sustenta quando o casamento que
deveria ser porto se torna o vale da sombra da morte.
A isso os pesquisadores chamam de coping religioso-espiritual , e o que eles descobriram surpreende:
não é apenas se você tem fé que importa para sua saúde física e mental. E como você usa essa fé.
Pargament, o maior pesquisador desta área, identificou cinco estilos de coping religioso-espiritual. Cada
um revela uma postura diferente diante de Deus. Cada um produz resultados diferentes na vida da
pessoa. Vamos conhece-los — não com a linguagem árida dos artigos científicos, mas com a linguagem
da vida real.
Estilo 1: O Delegante
“Senhor, resolve. Estou esperando.”
A pessoa que usa o estilo delegante entrega o problema para Deus e fica parada.
Imagine uma cozinheira que coloca o bolo no forno e vai assistir séries. Não regula a temperatura.
Não verifica se o forno esta bem calibrado. Não faz nada. Acha que o bolo vai sair perfeito porque ela
entregou para Deus. Quando o bolo queima, ela se pergunta: Por que Deus não cuidou do meu bolo?
Esse e o estilo delegante. Ele parte de uma premissa verdadeira — Deus e soberano — mas chega a uma
conclusão equivocada: que a soberania de Deus dispensa a responsabilidade humana.
Na prática, isso aparece assim:
-Aguarda um milagre sem mover um musculo.
-Usa a fé como razão para a inércia.
-Sente-se culpada quando as coisas não resolvem, interpretando isso como falta de fé ou abandono de Deus.
A pesquisa mostra que este estilo, quando usado sozinho, tende a produzir resultados negativos para a
saúde mental — aumenta a ansiedade, a sensação de desamparo e a depressão. Não porque Deus seja
insuficiente, mas porque a pessoa abdica da sua parte no processo.
Estilo 2: O Autodirigido
“Eu resolvo. Deus me deu capacidade.”
No extremo oposto esta o estilo autodirigido. Aqui, a pessoa age por conta própria — e Deus, na prática,
fica de lado.
E a bordadeira que sabe tudo sobre bordado, tem todos os materiais, domina todas as técnicas — mas
nunca para para perguntar ao Criador que desenho colocar no tecido da vida. Ela é competente. Ela
resolve. Ela entrega. Mas a vida espiritual é rasa, porque tudo depende do repertório dela.
Este estilo não é necessariamente ateu. A pessoa até ora. Mas a oração é protocolo — um ritual de início
e fim, não uma conversa real. Na prática, ela age como se Deus não fosse participar da resolução do
problema.
Na prática, isso aparece assim:
– Confia exclusivamente nas próprias habilidades e análises.
– Quando erra, cai sozinha — sem a ancora de uma relação com Deus que sustente.
– Tem dificuldade de receber ajuda — de Deus e dos outros.
A pesquisa mostra resultados variáveis para este estilo. Em pessoas com alta capacidade de resolução de
problemas, pode funcionar bem a curto prazo. Mas nas grandes crises — doença terminal, perda
irreparável, injustiça sem solução — ele deixa a pessoa completamente descoberta.
Estilo 3: O Colaborativo
“Deus age, eu ajo. Juntos — é nessa ordem.”
Este é o estilo que a pesquisa consistentemente associa aos melhores resultados de saúde física, mental
e qualidade de vida.
A pessoa colaborativa entende que a vida espiritual é uma parceria real. Não entrega tudo para Deus ficar
parada. Não toma tudo para si ficar sozinha. Ela co-responsabilíza: busca a vontade de Deus, age
conforme o que recebe, e permanece atenta ao que Ele vai fazer com o que ela não pode controlar.
E a cozinheira que aprende a receita com cuidado, prepara os ingredientes com atenção, regula o forno
com responsabilidade — e ora sobre o processo inteiro. Ela sabe que o resultado final pertence a Deus.
Mas sabe também que a sua parte precisa ser feita com excelência.
Quando algo da errado, a pessoa colaborativa não culpa Deus nem se destrói.
Ela volta a mesa com Ele:
O que aconteceu aqui ? O que eu não vi ? O que preciso ajustar ?
Na prática, isso aparece assim:
– Ora pedindo orientação antes de agir, não apenas aprovação depois.
– Toma decisões com responsabilidade, mas mantem as mãos abertas para ajustes divinos.
– Sente a presença de Deus como parceiro ativo, não como árbitro distante.
Este é o estilo de Paulo em Filipenses 4 — apresentem seus pedidos a Deus não é passividade, é
conversa.
E: eu faço minha parte, Tu fazes a Tua, e eu confio que Tu sabes fazer melhor.
Estilo 4: O Suplicante
“Senhor, por favor — muda o que esta acontecendo.”
O estilo suplicante é o da pessoa que tenta influenciar ativamente a vontade de Deus por meio de rogos
intensos e persistentes. Aqui é onde a coisa fica mais complexa — porque a súplica em si é bíblica.
Jesus ensinou a pedir, buscar e bater a porta (Mt 7.7). Elias orou com insistência. A viúva persistente do
Evangelho de Lucas e elogiada por sua persistência.
O problema não é pedir. O problema é como se pede.
Panzini, pesquisadora brasileira que adaptou a escala de Pargament para o contexto nacional, fez uma
distinção preciosa: a súplica pode ser positiva ou negativa dependendo do espírito do pedido.
Súplica positiva: Senhor, eu Te peço que intervenha. Mas se a Tua resposta for diferente da minha, eu
confio em Ti. Esse pedido respeita a soberania de Deus enquanto apresenta a necessidade com
honestidade. E Getsemani — se possível, passe este cálice; contudo, não a minha vontade, mas a Tua.
Súplica negativa: Senhor, eu preciso que isso aconteça do meu jeito. Vou orar ate Você me dar o que eu
pedi. Esse pedido usa a oração como ferramenta de controle — e quando a resposta não vem, gera
amargura, abandono espiritual e crise de fé.
Na prática feminina, isso aparece muito na criação de filhos, no casamento, nos relacionamentos — a
mãe que ora de joelhos todos os dias por uma coisa específica e, quando não acontece como pediu, sente
que Deus a falhou. A crise não é de fé — e de estilo. A súplica que impõe condições a Deus está fadada
ao sofrimento.
Estilo 5: A Renúncia
“Tua vontade, não a minha.”
Este é o estilo mais maduro — e o mais raro. E também o mais mal compreendido.
Renúncia não é passividade. Esse é o equívoco mais comum. Renúncia não é o estilo delegante com
verniz espiritual. É exatamente o oposto: é uma escolha ativa de submeter a própria vontade a vontade
de Deus.
A diferença é enorme. O delegante não age porque espera que Deus faça tudo. Quem renúncia age com
tudo que tem — e oferece o resultado. Como a bordadeira que passa semanas criando uma peça com
toda sua habilidade e amor, e no fim entrega como presente, sem apego ao reconhecimento que vira.
O estilo de renúncia está enraizado em Mateus 10.39 — quem perder a sua vida por minha causa, a
encontrará — e em Mateus 26.39, o Getsemani de Jesus. E a espiritualidade do não importa o que
aconteça, Deus é bom. Não ingênua. Não negando a dor. Mas ancorada em algo que não depende das
circunstâncias.
A pesquisa mostra que este estilo, quando genuíno, está associado a paz profunda, resiliência e
crescimento pós-traumático — a capacidade de sair de uma crise maior do que entrou.
Na prática, isso aparece assim:
– Age com excelência, mas não se afoga quando o resultado é diferente do esperado.
– Consegue dizer não entendi, mas confio sem fingimento.
– Encontra significado mesmo no sofrimento — não porque o sofrimento seja bom, mas porque Deus pode ser encontrado dentro dele.
O que a Pesquisa Confirma
Mais de 850 pesquisas examinaram a relação entre fé e saúde mental. A conclusão é consistente: quem
usa estratégias de coping religioso positivo — colaborativo, de renúncia, suplicante com abertura —
apresenta :
Menor solidão • Menos episódios de raiva e amargura • Recuperação mais rápida da depressão •
Maior sensação de propósito e significado • Melhor qualidade de vida em todos os domínios.
Já o coping religioso negativo — delegante passivo, suplicante controlador, ou sentir que Deus está
punindo ou que a pessoa foi abandonada por Ele — está associado a piores resultados de saúde mental.
A conclusão não é que fé piora a vida. É que certos modos de usar a fé em situações de crise podem
aumentar o sofrimento — especialmente quando a relação com Deus e baseada em medo, culpa ou
tentativa de controle.
Qual e o Seu Estilo ?
Você não precisa usar só um. A maioria das pessoas usa combinações diferentes dependendo da situação.
Mas e possível — e muito útil — identificar qual e seu padrão predominante.
Algumas perguntas para reflexão:
Quando algo difícil acontece na sua vida, qual e a sua primeira reação com Deus ?
Você tende a agir sem orar, ou a orar sem agir ?
Quando sua oração não é respondida do jeito que você pediu, o que acontece com a sua fé ?
Você consegue dizer não entendi, mas confio — ou essa frase soa vazia para você ?
Não há resposta certa ou errada. Há honestidade — e a honestidade e sempre o ponto de partida de uma
fé mais madura.
“Aprendi a contentar-me em qualquer estado em que me encontre.”
— Filipenses 4.11
Referências Científicas
Panzini, R.G.; Bandeira, D.R. — Coping Religioso/Espiritual. Revista de Psiquiatria Clinica, 34, supl.1, pp.126-135, 2007.
Pargament, K.I. — The Psychology of Religion and Coping: Theory, Research, Practice. Guilford Press, New York, 1997.
Xu, J. — Pargament’s Theory of Religious Coping: Implications for Spiritually Sensitive Social Work Practice. British
Journal of Social Work, 46(5), pp.1394-1410, 2016
Rita Holzbach é doutora em Psicanálise, mestre em Psicologia, pesquisadora hebraica e escritora.
Autora de Miss Rita e o Grão de Mostarda, Rita Ferrari e o Grão de Areia, O Mito da Identidade e O Mito da Autoestima.
ritaholzbach.com.br